Censurare humanum est
Acabo de ler no NC um texto encomiástico d’uma senhora com nome de patto com dois aristocráticos “tt”, que fazem, quanto a mim, toda a diferença. A escriba, costumeira cronista deste pasquim, debitava amenas narrativas numa prosa torpe para improváveis leitores, até ao dia em que um pároco lhe abençoou um texto com as devidas mutilações censórias. Ámen. Recomposta das mazelas infligidas pelo censor(es) de serviço, a senhora Patto, veio agora, sem se rir, escrever umas arengas desculpabilizantes do atrevimento pidesco; pouco dignificantes, é certo, e de nula relevância para o caso. O que importa, isso sim, é saber o que continha afinal o escrito pecaminoso da senhora patto:
Tratar-se-ia d’uma tese conspirativa contra Bento XVI ?
Seria o texto promotor do casamento gay ou atentatório da moral basbaque? Teria, porventura, expressões injuriosas contra a fé católica? Não. Nada d’isto.
Tratava-se apenas de um panegírico dirigido ao maestro cherovia (com o devido respeito). É isso mesmo, caro leitor, um elogio da senhora patto ao então candidato à junta da Conceição. Foi quanto bastou para que o pasquim NC se borrasse de medo e aplicasse sem dó, alguns cortes no texto da respeitável senhora. Insólito, ou talvez não, mas a verdade é que continua a existir um medo cimentado no inconsciente cultural dos tugas em moldes tão estruturais que o tornam, ainda hoje, um "fenómeno colectivo", como refere e bem a senhora patto no seu artigo de opinião. No meio do dislate, não deixa de ser triste, assistir à lenta dissolução deste simulacro de informação do condomínio, entregue a um raminho de paroquianos, vítimas da própria pusilanimidade. De quem ou do que teria medo o NC?
É claro que o deslize censório do pasquim NC, faz parte d’uma táctica milenar, essa, de tentar apagar os incómodos e acabar de vez com a patologia da opinião. Mas também incorpora a cartilha oficial do respeitinho pelas hierarquias e a ordem estabelecidas no condominio. Ao assumir uma lógica mercantil, o NC vê-se obrigado a tratar com desdém e a censurar qualquer argumento que mexa com a influência ideológica e interesses instalados na paróquia. É só isso e não vale a pena dar mais voltas ao texto. Uma miséria. E não há como escapar-lhe.
Amen.




Atente-se no caso da Covilhã; são resmas deles reféns do call center, a viverem de telefone e micro ao ouvido, horas a fio, com contratos precários que raramente ultrapassam os 600 euros por mês. Jovens licenciados premiados pelas competências adquiridas nos novos produtos e serviços 5 estrelas, que vendem e apoiam nas teleperformances do condomínio. Muitos dirão: antes isso do que ir parar a caixas de supermercados e balcões de lojas nos shoppings. Certo, também não queremos contribuir para o desânimo estéril, mas dizer que estes empregos estão no domínio das novas tecnologias, são estáveis e altamente especializados, como defende a directora do call center do condomínio, revela, no mínimo, um grande atrevimento e dá que pensar.


